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23:43 - Surpresa*

Um dia seu amor aparecerá, na esquina ou sentado ao seu lado em um ônibus qualquer da vida. Ele olhará para sua face e pedirá que o ame sem consultar ninguém de confiança, sem pensar nos problemas e sem medir as consequências. Pedirá que não olhe para trás nem o deixe só quando os olhos, fechados, não puderam mais ver o resto que tanto ama. Um dia o ônibus saíra ou a esquina será ocupada por outras pessoas e a agitação fará com que surjam novas formas de amar, novos rostos pelos quais poderá sofrer uma paixão fulminante. E a vida correrá seu curso. Passará dias em anos. Mudará você e ele. Um dia olhará para o lado e relembrará aquele dia no ônibus, ou na esquina, e verá ao seu lado aquele amor pedinte, olhando para você no acordar de um sonho bom. Então, não mais que de repente, verá que tudo valeu a pena. Que chorar fez bem aos olhos sujos de coisas feias, que gritar limpou a garganta para expressar todo o amor do mundo ao amor vivente, que no sofrimento passado o amor cresceu.
Um dia o…
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23:40 - Não vou abrir a mão!*

Cada vez que a luz estupra meus olhos, trazendo-me para a realidade nua, exposta em carne viva, explodo todos os poros em estupores desenganados pela ciência do acaso. Meus casos acabaram na noite passada entre a passarela do tráfico e os limites matemáticos das salas de aula. As bundas sonhadas murcharam em meio às mais novas fantasias de um rico ascendente. Na procura de subterfúgios milhares foram os meios impróprios, próprios do escárnio, que usei para alcançar a estrela da manhã e pedir, com orgulho e cara de pau, parte daquele lugar que também é meu, por direito e dever, do mundo e de seus criadores. Desci o morro falando secamente as vantagens das casas frias e as tantas sabedorias de fundo de garrafa dos bares noturnos cheios de putas e malandros. De todos arranquei os arrepios na passagem escabrosa dos dias com falados contos verídicos de terras onde a mulher come jacaré no almoço e o homem, no jantar. Os olhares dilapidaram minha riqueza, petrificada em poucos molambos e reles…

23:34 – Lembranças rasgadas*

Se me perguntarem de amores e paixões tidos não responderei ao chamado da curiosidade alheia, ignorar-lhe-ei até mesmo durante os instantes mais intensos de sua insistência. Guardadas em meus sentidos, as perguntas ficaram sem resposta concreta, sem certezas cujas razões sabem até mesmo os mais débeis seres do universo. Que me importa se o julgamento dos outros recaia sobre meu caminho, colocando pedras onde exista a fluidez de rios, durante o período das flores? Que interesse tem em desgraças alheias se ao teu lado somente as cascas sorriem, quebrando ao mais leve sopro do vento? Que fatos procuram nos baús lacrados pelo tempo, se nada faz de novo para limpá-los e revivê-los! Não insisto nos pecados inocentes das redes cavernosas que se fundem a tantos desenganos cometidos a mim entre o respirável ar da manhã feliz e as intempéries daqueles que se maltratam sempre e cada vez mais através de atos tão baixos e sem sentido. Não me olhe de soslaio quando receber de mim as respostas infame…

O lastimável estado das escolas de Palmeira dos Índios

A situação da educação em Palmeira dos Índios é deplorável e não é um quadro novo. Enquanto os vereadores reúnem-se em assembleia, com ar-condicionado e água, café e lanches, e os secretários e prefeito e vice-prefeito lidam com “urgências” municipais, crianças e adolescentes estão sendo fritos em salas de aula e bibliotecas que mais parecem saunas – com um teto baixo e usando telhas da marca Brasilit, produzidas com amianto – todos os dias. Aliado ao calor insuportável tem-se a falta de água potável para os estudantes e a falta de merenda escolar. Para a zona rural ainda existe o problema das péssimas condições de acesso às escolas. Temos, agora, o problema de falta de água e que não justifica que a prefeitura e a secretaria de educação deixem crianças à mercê de doenças transmitidas por água contaminada – uma vez que é comum saciar a sede das crianças com água salobra – ou deixa-las simplesmente sedentas. Não há justificativa para deixar os estudantes sem merenda. O governo munici…

A lamentável situação da EM Mary Sampaio Caparica

Tive a oportunidade de visitar a Escola Municipal Mary Sampaio Caparica, nesta terça-feira, 28, juntamente com uma comitiva formada por integrantes da sociedade civil organizada de São Paulo e Palmeira dos Índios e de um engenheiro civil mexicano e de um observador dos Estados Unidos. Ficamos impressionados com a delicadeza da gestão escolar em oferecer, com eficiência, uma educação inclusiva para crianças com necessidades especiais e com a organização do ambiente escolar, mesmo em meio a tantas dificuldades. Entretanto, um dos problemas mais marcantes é a falta de água potável e a Biblioteca da escola – não que os poucos livros sejam um problema; o problema real é o teto baixo, com telha de amianto, que torna o recinto impróprio para uso. A biblioteca precisa de livros e de uma “reforma” que propicie um teto decente para que as crianças não enfrentem o calor infernal e insuportável que faz no recinto, o dia inteiro e a cada hora pior. É uma vergonha que uma “reforma” que custa absur…

23:15 - Varrendo a Solidão*

A solidão para em frente à cama na tentativa fracassada de acalentar as lágrimas que escorrem de grandes olhos infelizes. Sorri para ela como a oferecer um bem nunca experimentado para nem mesmo receber, em troca, a palavra de repulsa que a fará feliz na madrugada sem amor. Levanta-se e no exercício das piadas seculares faz seu melhor espetáculo sem conseguir, no entanto, um olhar vazio qualquer. Vestida em seus melhores trajes esfarrapados está olhando a falta do sono que atormenta a criatura desolada no leito sem razões que agora resolve estar. Não precisa ler as mãos nem bagunçar a mochila em busca de papéis e restos de melancolia, porque a inexistência faz de tudo um par de falta. Falta o carinho da pessoa certa na rotina sempre mantida pelas atividades da exaustão. Falta o tapa dado na hora da piada gracejada. Falta o ciúme forjado. Falta a falta. Pede para levantar e sair, ver de novo o que precisa para a animação voltar e a música encantar em seus toques o vento que levanta o vest…

23:10 - Pelo ralo*

E tudo vai mal quando vai tudo pelo ralo, deixando sobre o piso restos solúveis. E vai qualquer lembrança boa e de tudo sobra apenas as caixas de maldizer sinceras ou não. Mal vão também as tempestades sem frio, no calor das destruições banais. Ah, essa banalidade inverídica dos amores e paixões presentes e decentes! Quando não mais os ventos trazem as sólidas formas de nada adianta o pesar, ou o pensar, de perdido tempo, ou não. De nada valem as coisas, os planos, os ditos e desditos, os fatos, os segredos, os causos e os abusos. Não vale mais nada a moeda de troca, muitas vezes, desvalorizada, porém única. Já não vale mais o passado, porque as águas de março lavaram o chão e foram para o oceano do esquecimento as marcas dos pés cansadas, calados, imutáveis, sempre em pares. Nos trovões surgiram os ícones ocultos pelo silêncio traiçoeiro e dos raios a luz fez brilhar as imperfeições das paredes. Valha-nos, Deus! Acabando estão os amores do povo incrédulo na mesmice das boas novas que traz…