Hora coletiva


Vendedores de sorvete, amendoins, doces, eletrônicos, motoristas e cobradores de ônibus, marginais, trabalhadores, estudantes, desocupados. Todos juntos em um ambiente que só pode ser comparado com um forno cujas chamas emanam das pilastras concretizadas, das estruturas metálicas, do chão imundo que guarda as andanças de uns tantos indivíduos que buscam a rotina de uma vida sem sentido ou uma estagnação emocional, que tantos gostam gostam de chamar de estabilidade.  
Ao longe, sob gritos de revolta e um palavreado digno de uma classe jamais evoluída, surgem organismos briguentos, capazes de se matarem e assassinarem que intervir na questão de honra rueira. Xingam-se. Agridem-se fisicamente. E os ônibus continuam a entrar e sair do lugar nenhum para a espera com a frieza do trabalho mecânico, tão bem executado no forno aberto da rua. Para o espetáculo foram convidados todas as pessoas entediadas pela espera interminável daquilo capaz de levar-lhes ao destino (final?).
E riem, gesticulam, especulam, criticam, aplaudem e zombam de dois seres sem perspectivas, jogados ao mundo dos injustos justos. 
Passam os automóveis coletivos, as pessoas se vão, os casos se desfazem, o calor aplaca-se e aqueles continuam lá, tomados pela raiva, pela decepção. O ambiente continua sua imutabilidade muda e quente para a posteridade sem escolha.

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