Um retrato, duas vidas

O Retrato de Dorian Gray
A imortalidade apenas é válida se mantida com todos os pré-requisitos do pecado, ou seja, com a beleza juvenil, com a disposição física e mental e com a capacidade de inovação contínua. Para ser uma verdadeira maneira de imortalizar-se é preciso que se tenha alguma forma de estabelecer uma conexão livre e absoluta entre eventos mundanos e a consolidação da própria figura como ser agente do bem e do mal entre os dois tão desejados pela humanidade, o paraíso e o inferno.
Por outro ponto, é categoricamente pressuposto que  para ser imortal, contrariamente ao que se pensava na antiguidade, não é necessário viver eternamente, vagando por terras sempre desconhecidas, quando a região que habita for tediosa e sem sentido motivacional. Descobriu-se, então, que a maneira mais eficaz de percorrer o planeta em todos os idiomas e nas mais diferentes formas de imaginação possível. 
É assim que o único romance de Oscar Wilde pode ser incluído em um mundo digitalizado pela artificialidade da tecnologia e que desloca a imaginação e a capacidade criativa para um meio riquíssimo e repleto de conhecimento, filosofia e atualidade. O Retrato de Dorian Gray compreende todo um mundo de busca, pecado, renascimento, perdão e abismos que fazem de uma simplória história narcisista ser uma surpreendente e emocionante trajetória daquilo que o homem sempre procura em suas atividades rotineiras e mais banais. 
Nesse romance as variações de humor e desumanidade do protagonista pode ser comparada com nossas imagens projetadas em retinas e espelhos de uns tantos desencontros, encontros e eventualidades a que nos propomos, mesmo que inconsciente, a erradicar durante o fracasso de um relacionamento, às vezes nascido falido, de um projeto diminuto, ainda não gerado, ou de uma contrariedade a que atribuímos o demasiado valor de nosso narcisismo. 
De valor agregado, nas entrelinhas, o romancista mostra-nos a valiosidade de uma vida bem vivida, apesar do mal cometido e do bem represado, e de como podemos, quando despojados de qualquer preconceito, modismo ou medo, agir com a naturalidade e despreocupação com um futuro sempre incerto e mutável. Para uma boa leitura de si e dos modos sociais, transcritos em linhas frias dos mais de cem anos de criação, O Retrato de Dorian Gray ainda guarda a alma do autor e uma nociva, pela sua sinceridade e audácia, receita de como nos posicionar nessa era do intelecto fragmentado em redes sociais.

Postagens mais visitadas