La cena


Passando pela encruzilhada que leva à Casa Museu Graciliano Ramos, vindo da praça do Skate, à noite, deparei-me com uma cena inusitada para a vida real e muito comum nas redes sociais. 
Sentado no batente da loja da São Geraldo, um homem  comia um pedaço de carne, e não sei se era morador de rua, e olhando fixamente para ele tinha um cachorro branco, grande e forte, sentado e esperando seu pedaço de carne.
Em uma primeira olhada acreditei, como é comum, que o homem estava ignorando o cachorro e que não daria nem o osso para o pobre animal que é, com dúvida, de rua.
O homem comeu seu pedaço de carne e deu o restante para o cachorro, que pegou no ar a carne ossuda. Os dois, então, ficaram satisfeitos e amistosamente contentes, suponho.
O que tem de anormal nisso?
Bom, primeiro, o homem estava sentado na mesma altura do cão; segundo, o cão respeitava o homem; terceiro, o homem não foi egoísta, como é de se esperar da nossa espécie.
A cena, terna e significativa, fez-me pensar que enquanto saímos de restaurantes e lanchonetes com as mãos abanando, mesmo sabendo que na mesa ficou restos de carne e ossos e que na rua há cães e gatos esperando para revirar o lixo - muitos deles ficam postados nas saídas de restaurantes e lanchonetes -, fazemos o que costumamos: olhamos para eles com olhos de quem nada vê e seguimos para igrejas para pedir perdão pelos pecados que cometemos, e selecionamos os pecados mais "significativos", para casas onde a vida vazia das redes sociais nos ocupa e consome o tempo.
Palmeira dos Índios talvez não tenha jeito. Talvez esteja no fundo de um poço fedorento e fechado. Mas ainda há quem viva com a simplicidade de compartilhar, resto ou não, com quem considera amigo ou companheiro. E em uma cidade onde o veneno é usado como controle populacional dos animais de rua, ver tal cena chega a equivaler a um oscar da vivência.
Fui embora com a certeza de que, algum dia, o respeito recairá sobre todas as criaturas vivas - não só sobre o fraco ser humano.

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