A ex-beata de São Pedro

Foto: Praça do Açude.Palmeira dos Índios. Imagem da internet

Trancada em casa, procurando esconder-se dos próprios demônios, ela se remoía em inveja das antigas amigas que, mesmo tendo alarmantes dificuldades, podiam dar-se ao luxo de discutir, rir e planejar atividades com a família. A fogueira de São Pedro, queimando sob a chuva fina, esfumaçava a rua, as casas, as roupas, a vida dos infelizes solitários que, como ela, não tinha nada além de fofocas e de vis combinações secretas para aplacar o fardo de uma vida infrutífera.
A ex-beata de São Pedro, tendo envelhecido como um papel velho abandonado à ação da poeira e das traças, agora tinha que remoer um marido ausente, um punhado de "amigos" oportunistas e uma miríade de arrependimentos. Mas agora, escrava das próprias combinações vis e secretas, tinha que amargar a solidão na fria e imunda casa. Os "amigos", em orgias sodomitas e em prazeres corriqueiros, não só a renegaram, como a baniram de qualquer tipo de afetividade. 
E se cada um escolhe o que quer ser, o que quer fazer, a ex-beata conseguiu não apenas o sucesso como também ser o exemplo do que não se pode ser ou fazer se o desejo for ser uma pessoa bem-sucedida em um lar ou no trabalho. 
Há aqueles que fazem uma baderna para não ter o número de telefone divulgado, julgando-se importantes demais para serem incomodados, como se isso de fato fosse ocorrer. A ex-beata foi assim também até notar que ninguém se importa, ninguém liga. 
Agora está lá, reumática, abandonada, rejeitada e jogada às traças, remoendo o remorso de ter se vendido por nada; de não ter se posicionado na retidão e por nunca ter sido corajosa.
Se tivesse seguido São Pedro tudo teria sido diferente. Hoje só consegue ser ex-beata.

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